Seminovos em 2026: os números que definem sua operação

10,8 milhões de usados negociados até julho, preço em +0,07% no mês e a Selic a 14,00%. O que cada número muda na operação da sua revenda.

Matheus Gobetti13 min de leituraatualizado em

Todo começo de mês sai relatório de emplacamento, mas é raro alguém juntar os números e traduzir o que eles significam pra quem está atrás do balcão de uma revenda. Esse é o objetivo deste panorama: reunir os dados públicos de 2026 sobre o mercado de usados e mostrar, em cima de cada número, o que muda na prática pra sua loja.

Os dados vêm de fontes oficiais e públicas: Fenauto e Fenabrave (volume de vendas), B3 (financiamento), Banco Central (Selic), índice IBV Auto do Banco BV e Tabela FIPE (preço). Cada número está referenciado no fim do texto.

Resposta rápida

Até julho de 2026 o Brasil negociou 10.832.969 veículos usados, alta de 7,7% sobre 2025, e a Fenauto projeta perto de 20 milhões no ano. O preço, que vinha subindo forte, freou: o IBV Auto de julho variou 0,07% no mês, a menor alta desde março de 2025, e o usado ficou mais barato em 16 das 27 UFs. Do lado do crédito, o semestre teve 3,78 milhões de contratos de financiamento, o melhor desde 2008, com a Selic em 14,00%.

Atualização de 16 de agosto de 2026. Este panorama foi refeito com o fechamento do primeiro semestre e os dados de julho: volume da Fenauto, preço do IBV Auto, financiamento da B3 e a Selic em 14,00% depois do Copom de 5 de agosto.

Versão anterior, de 15 de julho de 2026: o texto trabalhava com o primeiro trimestre (4,38 milhões de usados), o IBV Auto acumulado até fevereiro (+6,60% em 12 meses) e a Selic em 14,25%.

Sobre os números deste panorama: os dados de mercado mudam mês a mês. Os volumes de usados são da Fenauto e os de novos, da Fenabrave. Preço e juros vêm do IBV Auto (Banco BV), da Tabela FIPE e do Banco Central. Quando o texto cita uma faixa, ela representa a tendência mais recente. Confirme sempre o relatório do mês vigente para o número atualizado.

O tamanho do mercado em 2026

Comece pelo básico: o usado vende muito mais que o zero km. No primeiro trimestre de 2026, a Fenauto contabilizou 4.378.062 usados negociados, contra 1.254.696 novos emplacados pela Fenabrave no mesmo período [1][2].

Mês (1º tri de 2026)Usados vendidosNovos emplacados
Janeiro1.340.333366.713
Fevereiro1.363.383374.931
Março1.674.346513.099
Total do trimestre4.378.0621.254.696

A conta dá uma proporção de aproximadamente 3,5 usados para cada carro novo [1][2]. Não é um número pontual: o usado é historicamente o maior mercado, e 2025 fechou em 18.508.929 unidades, o recorde da série que começa em 2011, com alta de 17,3% sobre 2024 [1].

Com o ano já mais avançado, o quadro fica melhor de ler. O primeiro semestre fechou em 9.078.184 usados, alta de 8,7% sobre o mesmo período de 2025. Julho sozinho somou 1.754.785 unidades, 10,7% acima de junho — e o número é esse mesmo: a comparação da Fenauto aqui é contra o mês anterior, não contra julho do ano passado. No acumulado de janeiro a julho são 10.832.969 veículos, alta de 7,7% nominal e de 9,2% na média por dia útil [1].

Recorte de 2026Usados negociadosVariação
1º trimestre4.378.062
1º semestre9.078.184+8,7% sobre o 1S2025
Julho1.754.785+10,7% sobre junho de 2026
Janeiro a julho10.832.969+7,7% sobre 2025

Nesse ritmo, a Fenauto projeta o ano perto de 20 milhões de veículos usados [1]. É uma projeção mais contida do que a faixa de 20,5 a 21 milhões que circulava no começo do ano.

O que isso significa pra você: o volume não é o gargalo. Tem carro trocando de dono o tempo todo, em todo lugar. A disputa não é por demanda, é por eficiência: quem captura o lead, responde rápido e fecha antes do concorrente. Loja que trata isso no olho perde para quem trata com processo.

O ritmo de 2026: dois mercados em alta

Diferente de outros anos, em 2026 novos e usados subiram juntos. Do lado dos novos, a Fenabrave reportou alta de 20,1% em veículos leves no primeiro semestre, o melhor resultado para o período desde 2011, e revisou a projeção do ano para 2,77 milhões de leves, crescimento de 8,8% [3].

Do lado dos usados, o crescimento é mais modesto em percentual e muito maior em unidades: +7,7% até julho, sobre uma base de 10 milhões. Sete pontos e sete décimos em cima de dez milhões de negócios são mais carros trocando de dono do que vinte pontos em cima de um milhão e meio de emplacamentos.

O que isso significa pra você: mercado aquecido nos dois lados é boa notícia, mas com um efeito colateral. Mais zero km vendido hoje vira mais seminovo bom de estoque daqui a 1 ou 2 anos, e isso pressiona a oferta pra cima. Quem tiver processo de aquisição azeitado vai conseguir comprar melhor num momento em que o giro está favorável. Vale revisar seu processo de compra e capital de giro antes que a concorrência aperte.

O preço: o ciclo de valorização está freando

Esse é o número que mais mudou desde a primeira versão deste panorama, e é o que mais mexe com decisão de compra de estoque.

Pelo IBV Auto, índice do Banco BV que mede a variação de preço de leves usados, julho de 2026 fechou em +0,07% no mês. É a menor alta mensal desde março de 2025. Junho tinha sido +0,57%, então a desaceleração aconteceu em um mês [4].

PeríodoVariação do preço de usados (IBV Auto)
Janeiro de 2026+0,90%
Fevereiro de 2026+0,55%
Junho de 2026+0,57%
Julho de 2026+0,07%
Acumulado de 2026 (até julho)+3,56%
Acumulado 12 meses (até julho)+6,10%
Acumulado 12 meses (até fevereiro)+6,60%

O acumulado de 12 meses recuou de 6,87% para 6,10%, e o detalhe regional é o mais revelador do levantamento: em julho, o usado ficou mais barato em 16 das 27 unidades da federação [4]. A média nacional ainda é positiva porque as UFs que subiram pesam mais, não porque o preço esteja subindo em todo lugar.

O que isso significa pra você: carro parado no pátio custou caro em 2025, e a época de "segurar que valoriza sozinho" acabou. Se o seu estoque está numa das dezesseis UFs em que o preço caiu, esperar não é neutro — é perder. A margem volta a depender de comprar bem e girar rápido. Se você ainda mede lucro pelo valor de venda, vale entender a diferença entre margem real e margem aparente e como a Tabela FIPE se forma antes de precificar. E, para dimensionar o custo de esperar, a calculadora de custo do carro parado faz a conta por dia.

Os juros: o ciclo virou

O financiamento é como a maior parte dos usados é comprada, então a Selic manda no seu volume de vendas. Depois de bater o topo de 15% ao ano, a taxa recuou em quatro cortes consecutivos de 0,25 ponto e está em 14,00% desde 5 de agosto de 2026, em decisão unânime do Copom [6].

MomentoSelic (ao ano)
Topo do ciclo de aperto15,00%
Junho de 202614,25%
Desde 5 de agosto de 202614,00%

Parece pouco, mas cada ponto de juro muda a parcela e, portanto, o "sim" do cliente. Parcela mais leve amplia a base de quem consegue comprar, e isso costuma aparecer com dois a três meses de atraso.

O crédito: o melhor semestre em 18 anos

Aqui está o número que fecha o quadro. Segundo a B3, que registra os contratos com alienação fiduciária, o primeiro semestre de 2026 teve 3,78 milhões de contratos de financiamento de veículos, alta de 10,9% sobre o mesmo período de 2025 e o melhor primeiro semestre desde 2008 [7].

Antes de seguir: é contrato, não real. Vários veículos publicaram "R$ 3,78 milhões", o que daria uns cinquenta carros.

Recorte do 1º semestre de 2026ContratosVariação
Total3,78 milhões+10,9%
Usados2,38 milhões
Novos1,39 milhão
Junho, novos112 mil−3,3% sobre junho de 2025
Junho, usados323 mil+12% sobre junho de 2025

Duas coisas saltam. A primeira é a divergência de junho: o financiamento de zero km caiu 3,3% enquanto o de usado subiu 12%, na mesma comparação anual. A segunda é o prazo médio, que subiu de 46,3 para 47,2 meses — quase um mês a mais de parcela. O comprador está esticando o prazo para a parcela caber, o que é o retrato de uma demanda que continua vindo, mas com o orçamento mais apertado.

No corte regional, o Centro-Oeste liderou com +13,1%, seguido de Nordeste (+12,6%), Sul (+11,2%), Sudeste (+10,6%) e Norte (+4,4%) [7].

O que isso significa pra você: o vento sopra a favor da venda financiada, mas o cliente que chega está mais esticado. Loja que simula na hora, trabalha com bancos de perfis diferentes e sabe montar a operação no prazo certo captura essa demanda; quem depende de uma única financeira sente a seletividade. Para o detalhe de como a queda de juro mexe no seu bolso e na comissão, veja o post sobre Selic e financiamento pro lojista e o de comissão de financiamento.

Juntando tudo: o cenário de 2026 numa frase

O mercado de usados em 2026 é grande, está crescendo e tem o crédito voltando a ajudar. Ou seja, demanda não falta. O que separa a loja que aproveita da que só assiste é a operação:

  1. Volume alto premia quem responde rápido. Com milhões de negócios acontecendo, o lead que você demora pra responder fecha com o concorrente. Tempo de resposta virou fator de conversão, não detalhe.
  2. Preço esfriando premia quem compra bem e gira. Sem a valorização automática de 2025, a margem sai da compra e do giro, não da espera.
  3. Juro caindo premia quem tem financiamento na ponta da língua. A demanda que volta com a parcela mais leve vai pra loja que simula na hora e fecha rápido.

Nos três pontos, o denominador comum é o mesmo: dado e processo. Quem opera na planilha e no caderno não consegue medir tempo de resposta, giro por modelo nem taxa de fechamento por canal, e sem medir não dá pra melhorar.

Para acompanhar o mercado mês a mês. A Fenabrave publica os emplacamentos no início de cada mês em fenabrave.org.br e a Fenauto divulga os usados em fenauto.org.br. Para preço, a Tabela FIPE sai todo mês e o IBV Auto acompanha a tendência de leves usados. Para crédito, a B3 divulga os contratos com alienação fiduciária em trilliab3.com.br. Ao ler qualquer um deles, confira sempre contra o quê a variação está sendo comparada: mês anterior e mesmo mês do ano passado dão números bem diferentes.

Perguntas frequentes

Quantos carros usados foram vendidos no Brasil em 2026?

De janeiro a julho de 2026 foram 10.832.969 usados negociados, alta de 7,7% sobre o mesmo período de 2025, segundo a Fenauto. Só o primeiro semestre somou 9.078.184 unidades, com alta de 8,7%. Em 2025 o ano fechou em 18,5 milhões, recorde da série, e a Fenauto projeta perto de 20 milhões para 2026.

Quantos usados são vendidos para cada carro novo no Brasil?

Cerca de 3,5 usados para cada zero km. No primeiro trimestre de 2026 foram 4,38 milhões de usados (Fenauto) contra 1,25 milhão de novos emplacados (Fenabrave), uma proporção de aproximadamente 3,5 para 1.

O preço dos carros usados subiu em 2026?

Subiu, mas está freando. Pelo IBV Auto, índice do Banco BV, o preço dos usados acumula alta de 3,56% em 2026 e de 6,10% em 12 meses até julho. A variação de julho foi de apenas 0,07% no mês, a menor alta mensal desde março de 2025, e o usado ficou mais barato em 16 das 27 unidades da federação.

Como a Selic afeta a venda de carros usados?

A Selic define o custo do financiamento, que é como a maioria dos usados é comprada. Desde a reunião do Copom de 5 de agosto de 2026 a taxa está em 14,00% ao ano, no quarto corte consecutivo, um ponto abaixo do topo de 15%. Juro em queda deixa a parcela mais leve, e o efeito aparece na venda com dois a três meses de atraso.

Quantos financiamentos de veículo foram feitos em 2026?

No primeiro semestre de 2026 foram 3,78 milhões de contratos de financiamento de veículos, alta de 10,9% sobre o mesmo período de 2025 e o melhor primeiro semestre desde 2008, segundo a B3. Desses, 2,38 milhões foram de usados e 1,39 milhão de novos. O prazo médio subiu de 46,3 para 47,2 meses.

O mercado de usados cresce mais que o de zero km?

Em volume, o usado é maior e mais constante. Em 2026 os dois cresceram, mas com sinais diferentes no financiamento: em junho, os contratos de veículos novos caíram 3,3% enquanto os de usados subiram 12% contra junho de 2025. O usado parte de uma base muito maior, então move mais unidades e mais lojas.

Resumo em uma linha

O mercado de usados de 2026 tem volume recorde, preço acomodando e juro em queda. A demanda está posta; ganha a loja que responde rápido, compra bem e tem o financiamento na ponta da língua.

Fontes

  1. Fenauto (Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores), press releases mensais de venda de usados — fechamento de 2025, primeiro semestre e acumulado até julho de 2026. Disponível em fenauto.org.br.
  2. Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), emplacamentos de veículos novos, primeiro trimestre de 2026. Disponível em fenabrave.org.br.
  3. Fenabrave, balanço do primeiro semestre e projeção de vendas de 2026, julho de 2026.
  4. IBV Auto, índice do Banco BV para preço de veículos leves usados, divulgação de julho de 2026. Disponível em bv.com.br.
  5. Tabela FIPE, variação média mensal. Disponível em veiculos.fipe.org.br.
  6. Banco Central do Brasil, decisões e atas do Copom — 280ª reunião, de 4 e 5 de agosto de 2026, que fixou a Selic em 14,00% ao ano. Disponível em bcb.gov.br.
  7. B3, estatísticas de financiamento de veículos com alienação fiduciária, primeiro semestre de 2026. Disponível em trilliab3.com.br.

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