Imposto de 35% mexeu no seu elétrico usado

Importado ficou mais caro, nacional não. Desde julho, o elétrico usado tem dois preços, e a Fipe ainda trata como se fosse um só.

Matheus Gobetti13 min de leitura

Em 1º de julho, o imposto de importação de eletrificado fechou em 35%. Foi a última etapa de um cronograma de dois anos e meio, e passou quase sem barulho no varejo de usados, porque parece assunto de montadora.

Não é. O elétrico que já está no seu pátio não mudou nada. O zero km contra o qual ele é comparado mudou de preço. E só metade deles mudou.

Resposta rápida

Desde julho de 2026, todo eletrificado importado paga 35% de imposto de importação, contra 25% do elétrico e 30% do híbrido antes. O fabricado no Brasil não paga. Como usado é fração do zero km equivalente, o importado ganhou um teto de preço mais alto e o nacional continuou na guerra de preço. Na prática, o elétrico usado deixou de ter um preço só: tem dois, e a Tabela Fipe ainda não separa os dois casos.

De onde vêm os dados. A alíquota e a data de vigência são do Gecex-Camex [1]. Volume e participação de mercado são de Anfavea e Fenabrave, referentes a julho de 2026 [4][5]. Os preços de usados são do corte de agosto de 2026 da Tabela Fipe comparado com média de anúncio [7]. Política tarifária muda por decreto: confirme a alíquota vigente antes de fechar política de compra em cima dela.

O que mudou em 1º de julho

O imposto de importação de elétrico saiu de zero em 2023 e subiu por etapas até fechar em 35%:

DataAlíquota do elétrico importado
Até dezembro de 20230%
Janeiro de 202410%
Julho de 202418%
Julho de 202525%
Julho de 202635%

Híbrido plug-in vinha de 28% e híbrido comum de 30%. Desde julho, os três pagam a mesma coisa [1][2].

O tamanho do impacto depende da política comercial de cada marca, mas as estimativas de mercado ficaram na faixa de até 8% no preço final. Um importado de R$ 200 mil vai para algo perto de R$ 216 mil. Em modelos mais caros, como Volvo EX30 e Tesla Model 3, as projeções falaram de R$ 20 mil a R$ 40 mil [2][3].

Um detalhe importa para você: o imposto é cobrado na importação, não no caixa da concessionária [1]. Marca com estoque comprado na alíquota antiga pode segurar preço por alguns meses, absorver na margem ou cortar versão em vez de reajustar. Ou seja, o repasse ao consumidor não é instantâneo nem uniforme, e é justamente por isso que o efeito vai chegar no usado aos poucos, não de uma vez.

Nem todo elétrico pagou essa conta

Imposto de importação incide sobre o que entra no país. O que é feito aqui está fora.

Fora do imposto (produção nacional):

  • BYD Dolphin Mini, Camaçari (BA)
  • BYD Song Pro DM-i Flex, Camaçari (BA)
  • Chevrolet Spark EUV, Betim (MG)
  • GWM Haval H6, Iracemápolis (SP)
  • Toyota Yaris Cross Hybrid Flex

Dentro do imposto (importados):

  • BYD Song Plus e Sealion 7
  • GWM Ora 03
  • Geely EX2
  • Kia EV3, Smart #1 e #3, Volkswagen ID.4
  • Volvo, BMW, Mercedes e Tesla elétricos

A lista não é curiosidade de bastidor. Ela virou a chave que separa dois comportamentos de preço, e são justamente os modelos de maior volume que ficaram de fora do imposto.

O governo ainda aprovou uma cota de importação com tarifa zero de US$ 463 milhões para conjuntos CKD e SKD, veículos que entram desmontados e são montados aqui, válida até dezembro de 2026 [1]. Isso empurra ainda mais marca para o lado nacional da lista.

E a virada já apareceu nos números. Em 2025, 94% dos eletrificados vendidos no Brasil eram importados. Em maio de 2026, essa fatia caiu para 61%, enquanto a produção nacional subiu de 6% para 39% do segmento [6]. Em julho, a produção nacional de eletrificados cresceu 246% sobre julho de 2025, contra 78,5% de avanço nas importações [4].

O elétrico usado passou a ter dois preços

Usado não tem preço próprio. Ele é fração do zero km equivalente. Foi exatamente esse mecanismo que produziu a desvalorização de 46% em três anos que o índice IBV Auto mediu: o zero km caía, e o usado do pátio caía junto.

O imposto de 35% mexeu nesse mecanismo só de um lado.

Elétrico importadoElétrico nacional
Preço do zero kmPressão de alta (até 8%)Segue na guerra de preço
Teto do usadoSobe juntoSem mudança
Chegada de novas unidadesMais lenta e mais carasAcelerando
Risco maior no pátioPeça e assistênciaCorte de tabela do zero km

No importado, o zero km encarecendo significa que o usado equivalente ficou relativamente mais competitivo. Quem tem um ID.4 ou um Ora 03 no pátio ganhou algum piso, porque o substituto novo subiu de faixa.

No nacional, nada disso aconteceu. Dolphin Mini e Song Pro continuam pressionados pela mesma disputa de participação de mercado que já vinha derrubando o usado, agora com uma fábrica em Camaçari que passou de 100 mil veículos produzidos em nove meses e está inaugurando estamparia, soldagem e pintura no segundo semestre [8]. Mais volume nacional é mais unidade nova disputando o mesmo comprador do seu usado.

A leitura prática inverte a intuição: o elétrico importado do seu pátio é o que ganhou proteção, e o nacional é o que segue exposto. Se sua política de compra trata "elétrico" como uma categoria só, ela está errando nos dois sentidos ao mesmo tempo.

A Fipe não está acompanhando

Aqui está o problema mais imediato de quem precifica. No corte de agosto de 2026, a distância entre Fipe e média de anúncio nos elétricos usados foi grande e nas duas direções [7]:

ModeloAnoFipe (ago/2026)Média de anúncioDiferença
Peugeot e-208 GT2023R$ 97.859R$ 129.866+R$ 32.007
Nissan Leaf2024R$ 120.972R$ 120.215−R$ 757
Fiat 500e Icon2022R$ 131.982R$ 122.340−R$ 9.642

Trinta e dois mil reais acima da Fipe num carro de R$ 98 mil é um desvio de 33%. No mesmo levantamento, outro modelo aparece 7% abaixo. Não existe um viés a corrigir, existe uma referência que perde poder de previsão nesse segmento.

Faz sentido: a Tabela Fipe trabalha com média de negociação e precisa de amostra. Onde o volume de usado ainda é pequeno e o preço do zero km se move rápido, a amostra fica fina e a média chega atrasada. Em combustão a Fipe é uma boa âncora. Em elétrico, hoje, ela é só o começo da conversa.

Para o mesmo corte de agosto, a faixa completa dos elétricos usados mais baratos ia de R$ 71.075 (Renault Kwid E-Tech 2024, 185 km de autonomia) a R$ 138.042 (Chevrolet Bolt Premier 2022, 390 km) [7]. É uma faixa de preço de seminovo popular com componente de risco de carro de nicho.

O volume que está vindo

Nenhuma dessas contas importaria se o elétrico continuasse raro. Ele não está.

Julho de 2026 fechou com 279,5 mil emplacamentos, o melhor mês do ano, e os eletrificados chegaram a 23,5% do total, recorde, contra 10,9% um ano antes [4][5]. Só de elétricos puros foram 25,8 mil unidades no mês, alta de 269% sobre julho de 2025. No acumulado, o segmento cresceu 120,8% [4].

No primeiro semestre, a Fenabrave contou 90.470 elétricos puros, alta de 196,3%, e 154.472 híbridos, alta de 85,1% [5].

Quase um quarto do que sai de concessionária hoje é eletrificado. Esse é o carro que vai bater na sua avaliação como troca em 2028 e 2029, e uma parte vai chegar antes, via leasing e frota. Enquanto isso, o mercado de usados como um todo segue em ritmo forte: julho somou 1.754.785 unidades pela Fenauto, e o acumulado do ano chegou a 10,8 milhões, alta de 7,7%, com projeção de fechar 2026 perto de 20 milhões de veículos [9].

A demanda por informação também já apareceu antes da oferta. Um levantamento da Webmotors mostrou que as buscas por "comprar carro elétrico usado" cresceram 71% entre janeiro e abril de 2026 na comparação com os quatro meses anteriores. "Carro elétrico usado" subiu 72% e "quanto vale um carro elétrico", 35% [10]. Tem gente procurando o produto antes de existir estoque dele.

O que fazer no pátio agora

1. Separe nacional de importado no cadastro

Enquanto essa distinção não estiver visível no seu estoque, você não consegue aplicar política diferente para cada caso. É um campo, e ele é hoje o dado que mais explica o comportamento de preço do veículo. Trate como trata ano e câmbio.

2. No importado, use o zero km reajustado como teto

O preço de referência é o do modelo novo hoje, com o imposto de 35% dentro, não o que ele custava em 2025. Zero km mais caro levanta o seu teto, e é a primeira vez desde 2023 que esse teto sobe.

3. No nacional, mantenha a política defensiva

Dolphin Mini, Song Pro e Haval H6 seguem na lógica antiga: zero km em disputa de preço, com fábrica ampliando capacidade. Compra com folga e meta de giro curta continuam valendo, do jeito que a desvalorização medida pelo IBV Auto recomenda.

4. Precifique pelo anúncio, confira na Fipe

Inverta a ordem que você usa em combustão. Olhe o que está anunciado no seu raio de concorrência primeiro e use a Fipe como sanidade. Onde as duas divergem 30%, quem manda é o mercado.

5. Encurte o giro dos dois lados

O imposto mudou o teto, não o custo do dia parado. Continua sendo o segmento com menos histórico de liquidez e mais risco de mudança de regra. A calculadora de custo do carro parado põe número nessa conta, e o comparativo de margem real vs. aparente mostra o que sobra depois dela.

6. Bateria e garantia residual, sempre

Isso não mudou com o imposto e continua sendo o que o comprador pergunta primeiro. O guia de eletrificados na revenda tem o que checar item por item.

Onde está a oportunidade. Importado usado num mercado em que o importado novo encareceu é a posição mais confortável do segmento hoje. Um e-208 ou um Ora 03 bem avaliado atende um comprador que acabou de ver o zero km sair da faixa dele. O risco não é o carro, é o prazo: peça e assistência de importado seguem mais lentas, e cada semana no pátio pesa mais aqui do que num combustão.

Nacional e importado separados no mesmo estoque

Cadastro pela placa, referência da Tabela FIPE na tela e histórico de alteração de preço para acompanhar os dois preços do elétrico usado.

Saiba mais →

Perguntas frequentes

Qual é o imposto de importação de carro elétrico no Brasil em 2026?

35% desde 1º de julho de 2026, definido pelo Gecex-Camex. É a última etapa de um cronograma que começou em 10% em janeiro de 2024, foi a 18% em julho de 2024 e a 25% em julho de 2025. Híbrido plug-in vinha de 28% e híbrido comum de 30%. Agora os três pagam a mesma alíquota.

Quais carros elétricos não pagam o imposto de 35%?

Os fabricados ou montados no Brasil. BYD Dolphin Mini e Song Pro DM-i Flex saem de Camaçari (BA), o Chevrolet Spark EUV de Betim (MG), o GWM Haval H6 de Iracemápolis (SP) e o Toyota Yaris Cross Hybrid Flex também é nacional. Imposto de importação incide na entrada do veículo no país, não na venda da loja.

O imposto de 35% valoriza o elétrico usado?

Nos importados, tende a segurar a queda. Usado é fração do zero km equivalente: se o novo encarece até 8%, o teto do usado sobe junto. Nos nacionais o efeito não existe, porque eles não pagaram a conta e seguem na guerra de preço.

Posso precificar elétrico usado pela Tabela Fipe?

Só como ponto de partida. No corte de agosto de 2026, o Peugeot e-208 GT 2023 tinha Fipe de R$ 97.859 e média de anúncio de R$ 129.866, R$ 32 mil acima. No mesmo levantamento, o Fiat 500e Icon 2022 era anunciado R$ 9.642 abaixo da Fipe. A referência não acompanha o segmento no mesmo ritmo.

Quanto o elétrico já representa das vendas no Brasil?

Os eletrificados chegaram a 23,5% dos emplacamentos em julho de 2026, recorde, contra 10,9% um ano antes. Só de elétricos puros foram 25,8 mil unidades no mês, alta de 269% sobre julho de 2025. É o volume que vira troca no seu pátio em 2028 e 2029.

Resumo em uma linha

"Elétrico" parou de ser uma categoria de preço. O importado ganhou 35% de imposto no zero km e, com isso, um teto mais alto no usado. O nacional ficou de fora do imposto e segue exposto à guerra de preço. Quem precifica os dois pela mesma régua, e pela Fipe sozinha, está errando nas duas pontas.


Fontes

  1. Imposto de 35% entra em vigor no Brasil para carros elétricos importados. NSC Total, 1º de julho de 2026. Vigência confirmada pelo Gecex-Camex, incidência na importação e cota CKD/SKD de US$ 463 milhões. nsctotal.com.br
  2. Imposto de 35% sobre elétricos importados começa em julho: o que muda nos preços. Elétricos Brasil. Cronograma completo de alíquotas por tipo (BEV, PHEV, HEV), estimativa de impacto e lista de modelos afetados e isentos. eletricos.app
  3. Comprar um carro elétrico ou híbrido vai ficar mais caro em 2026. CNN Brasil. Estimativas de impacto por faixa de preço. cnnbrasil.com.br
  4. Emplacamentos batem recorde no ano e eletrificados atingem 23,5% das vendas em julho. Safras & Mercado, 7 de agosto de 2026. Dados Anfavea de julho de 2026, com declaração de Igor Calvet. safras.com.br
  5. Emplacamento de carros elétricos sobe mais de 196% em 2026, diz Fenabrave. CNN Brasil, 2 de julho de 2026. Volumes de elétricos e híbridos no primeiro semestre. cnnbrasil.com.br
  6. Produção nacional consolida recorde e impulsiona eletrificação no Brasil. Mecânica Online, 2 de junho de 2026. Inversão da curva de nacionalização: importados de 94% para 61%, produção nacional de 6% para 39%. mecanicaonline.com.br
  7. Carros elétricos usados: veja os 7 mais baratos em 2026. DOL, 17 de agosto de 2026. Preços Fipe de agosto de 2026 comparados com média de anúncio na Webmotors. dol.com.br
  8. BYD celebra 100 mil carros produzidos em Camaçari (BA). Monitor Mercantil. Marca alcançada em nove meses e ampliação de estamparia, soldagem e pintura no segundo semestre. monitormercantil.com.br
  9. Mercado de carros usados cresce 10,7% em julho. FENAUTO, 3 de agosto de 2026. Volumes de julho, acumulado do ano e projeção para 2026. fenauto.org.br
  10. Interesse por carros elétricos usados cresce 71% nos primeiros meses de 2026. Motor em Ação, 24 de junho de 2026. Levantamento Webmotors Autoinsights, com declaração de Natalia Spigai. motoremacao.com.br
  11. Tabela FIPE. Referência mensal de preço para negociação de veículos. veiculos.fipe.org.br